terça-feira, 28 de abril de 2009

O que é o Transence?

Um texto que fiz para contribuir com o debate de gênero e diversidade sexual no Movimento de Casas de Estudantes.

danilo, UFS
fneop
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SENCE – SECRETARIA NACIONAL DE CASAS DE ESTUDANTES
Regional Norte/Nordeste
Secretaria de Gênero: Darci-UFMA e Bruno-UFS

O que é o Transence?

Danilo Kamarov (Bruno), História UFS
Sencenne, Gênero

De forma pontual e categórica, o Transence é um espaço de opressão. Mais um no meu entendimento. A forma como é concebido e desenvolvido acaba por reproduzir preconceitos e principalmente reforçar a marginalização d@s* homossexuais. Mas vamos entender porque isso acontece.

Primeiramente, o Transence é um momento amplamente despolitizado, uma vez que não há debates/discussões e é visto apenas como “cultural” (no pior sentido da expressão, aquele que cultural é só festa/show). É uma reprodução do carnaval onde as pessoas se ridicularizam (no sentido literal, de fazer rir). E neste caso, se ridicularizar é se travestir. É isso que pensamos, que queremos? Travestir é algo ridículo?

Outro paralelo com o carnaval é a marginalização. Durante o ano todo (carnaval), ou a semana toda (ENCE), existe um dia específico para se travestir. Apenas naquele dia não haveria preconceitos, pois tod@s estão travestid@s. Mas isso é uma falácia: existe um dia para as pessoas expressarem o que realmente são, mas isso só é possível porque estão invisíveis uma vez que tod@s estão travestid@s. Seria o dia do avesso, no resto do ano/semana tod@s devem voltar ao “normal”.

Segundo, a eleição do Transence é baseada em quais critérios? @ mais escrot@, mais ridícul@? Podemos ver que não há nenhuma valorização da cultura e dos direitos d@s homossexuais. Pelo contrário, reproduzimos os estereótipos d@ homossexual. Até a troca dos nomes é realizada, principalmente entre os meninos que ganham nomes femininos “de guerra”. Alguém acredita que tod@ homossexual quer mudar de sexo? Homossexual é a atração física, emocional, estética e espiritual com seres do mesmo sexo, não quem quer mudar de sexo. E porque então no Transence tod@s se portam de forma afetada? Meninos se tornam afeminados e meninas “machonas”. Isso são estereótipos.

Terceiro. Seguindo a linha do reforço aos estereótipos e marginalização, restringimos @s homossexuais a espaços festivos. É como se esse fosse o limite deles, para além de festas hedonistas a relação homoerótica não é aceita. Para quem não sabe, quando a AIDS começou a ser disseminada, um dos argumentos que culpavam os homossexuais era que eles levavam uma vida promíscua. Grandes críticas à Parada Gay é que se enfatiza muito o desfile, os corpos, reforçando esse tipo de preconceito. É difícil imaginar @s homossexuais trabalhando, estudando, vivendo para a família.

Essa problemática também foi discutida nos encontros de História, mas o avanço foi nulo. Mudou-se de título, não é mais ENEH Gay-Sapa, agora é ENEH Fantasia. Mudou-se a embalagem e manteve-se o conteúdo. Algo parecido aconteceu no XII Ennece Sergipe 2008. No projeto inicial não tinha a cultural do Transennece, quando voltou do pré-ennece foi incluída sob o argumento de estar seguindo as deliberações do Ennece anterior. Belezau. Na plenária inicial do XII Ennece questionei qual o caráter do Transennece e expliquei minha compreensão deste como um espaço de opressão. A resposta é que o Transennece na verdade seria a noite da música eletrônica, trance principalmente. Vai vendo. Quando da noite cultural, o eletrônico rolando, começa uma movimentação. Não se sabe quem, não se sabe como, mas organizaram o desfile e a eleição do Transennece. E acabou-se reproduzindo todo o preconceito comentado no início.

Para o Transence ter alguma legitimidade, primeiramente é preciso politizar o espaço. Não apenas com GT que acaba se restringindo a quem se interessa pelo tema, mas com uma mesa como no XXXI ENCE Recife 2007. Com a institucionalização dos dias de opressão, onde um dia do Encontro e outro no ano, tod@s que se sentirem à vontade passariam o dia todo travestid@**. E neste último ponto temos uma grande diferenciação.

O Dia de Opressão começa não quando as pessoas saem na rua e passam o dia travestid@s, mas quando se toma a decisão de fazê-lo. Quando recusamos já nos politizamos se pensarmos porque recusamos. Não queremos ser ridicularizad@s, não queremos ser humilhad@s, etc. Não queremos isso nem por um dia, então imagine isso acontecendo toda a sua vida? O Dia de Opressão é um dia onde nosso cotidiano se mantém o mesmo com a diferença de estarmos travestid@s. Então iríamos travestid@s para assistir a aula, para o mercado fazer compras, ao andar de ônibus, ir pro trabalho (na medida do possível) etc. Sentir os olhos acusadores, as risadas debochantes, as piadas ofensivas, sentir um dia de opressão. É uma vivência mesmo! A partir daí podemos pensar em fechar uma noite do ENCE com uma cultural, que com certeza teremos uma compreensão desta noite muito diferente da que temos hoje.

* o uso do @ é para designar os dois sexos. É uma alternativa a expressões como “todos e todas”, “trabalhadores/as”.
** No caso dos meninos é mais fácil se travestir, basta colocar uma saia. As meninas precisam ser mais criativas, uma vez que existe menos simbologia no que seria “roupa de menino”.

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